domingo, 2 de dezembro de 2007

JOGO DE AMARELINHA

O mundo está tomando das minhas mãos
a menininha
que até a poucos anos dormia solenemente
deitada sobre o meu peito,
permeando seus sonhos
com a cadência do meu coração apaixonado....

As pantufas de após o banho da tarde
jazem com o pijaminha
em algum canto do armário,
talvez atrás dos tênis ou das mini-saias....

O jogo de amarelinha (céu ou inferno ?)
ficou pintado no chão de algum lugar
que te perdeu ...

Hoje, poucos momentos de sua vida adolescente
são presentes aos meus olhos
que começam a se habituar com suas ausências...

Os bichos de pelúcia
ainda lá, sobre o puff rosa, no canto do quarto,
cansaram de esperar por um afago
e tanto quanto eu – saudosos - aguardam
aquele carinho infantil que não volta mais...

MMartins
01 de dezembro de 2007
Valinhos

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

ONIPRESENTE



Pra que essa linda lua cheia lá fora , se
não posso vê-la refletida em seu olhar?
Pra que essa noite quente e deliciosa , iluminada assim....
se essa luz não te ilumina perto de mim?

Pra que esse calor em meu corpo
se não te tenho perto pra aquecer?
Pra que esta paisagem tão linda, romântica,
se não tenho você pra compartilhar?
Pra que este calor dentro de mim,
se não posso a você dar prazer?

Pra que esta casa tão grande, com todo esse jardim?
essas casas que temos e nos abrigam....
nos separam dessa lua que , onipresente , não sente
nossa dor.
não sabe desse amor

Então, fria e calculista, se apresenta linda,
alheia à angustia que vivemos.
Beira à crueldade ela ser assim
numa noite como essa é inevitável e desigual
contemplando nossos olhares românticos
estando longe, não consegues acatar essa regra tão banal
coisa que não se explica
afronta nosso penar de forma quase carnal
Essa lua lá fora...desnecessária
com sua beleza maldita !


MMartins/MMoreno
novembro 2007
noite de lua cheia

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

MELANCOLIA


Melancolia
Amante caprichosa
que vem afagar meus pensamentos
e me encontra triste....triste
como um pai
ao lado do leito do filho morto.....

Tem nas mãos um presente.
Dá-me como se fosse um agrado
uma pequena jóia em formato de gota
uma lágrima brilhante
que tem no centro, nacarados
trinta anos de receios
meias-palavras , medos e mentiras
contadas de diversas maneiras a mim mesmo
e agora desce-me pela face
sem nenhum sentido prático
percorrendo o tortuoso caminho assim , a esmo !

MMartins
21/11/2007

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

TEMPO AO TEMPO

"Fiquei aqui lembrando dos detalhes daquele dia, há vinte e cinco anos, seis meses e dezessete dias exatos atrás, quando cheguei aqui, vindo lá do tempo que era meu naquele tempo, e encontrei tudo assim, coisa por coisa.
Veja só que vai e vem, cada coisa que vi naquele dia virou palavra que contei, para depois então ir virando coisa outra vez, até ficar tudo de novo cada coisa no seu canto, que nem assim como está agora.
Deve ser bem por esse motivo que há quem ache que tem que se dar tempo ao tempo, eita povinho pra gostar de achar, esse."

"A maquina"

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

PROCLAMAÇÃO DE BODAS

Passaram-se vinte e cinco anos...
Crescemos em alma e rugas.
Os brancos dos nossos cabelos
que se mostram tímidos em mim
e em você tentam se livrar das tintas, inutilmente
denunciam isso.

Erramos de caminhos tantas vezes
julgando ser o certo.
Meu Deus, quantos atoleiros e espinhos
quantos troncos caídos, quantas ciladas
e ainda assim, juntos, conseguimos encontrar a trilha
que nos trouxe até essa casa
que hoje abriga nossos sonhos.

Nossos sonhos ?
Onde estão aqueles que tínhamos
quando então meu corpo exibia o vigor
que o teu conheceu, se apaixonou
e tantas vezes procurou ?
Agora minhas costas doem e seu pijama
oculta teu corpo do meu desejo.

As imagens e informações que chegam pela nossa tv 21 polegadas
distraem mais do que o jogo dos nossos dedos
no escuro de nossa cama.
Sob o edredon de nossas noites cotidianas
meus pés ainda procuram os seus (quase sempre frios)
e os encontram já adormecidos e amigos
para apenas ....estarem juntos.

Nossos sonhos....Quais são seus sonhos?
Acho que não sei mais !
Parece que não têm mais o mesmo teor
Acho que deixamos de os contar.
As vezes um pesadelo
ou algum sonho absurdo é partilhado...

Mas o que esperamos da vida?
Talvez não seja diferente da louça
que sobre a pia , no escorredor, seca sozinha !
para depois, dali mesmo ser usada de novo
e de novo, e de novo....

Meus pais estão distantes e velhos
vivos ainda , mas velhos e sem esperança de nada.
Meus parentes ausentes e sem dar notícias
nem sei mais onde estão ...
Eu, não sou mais do que eu mesmo e nossa família,
e você, geradora de vida e amor, se desilude dia-a-dia
com o fruto que cresce e independente mente em busca
do que nossas mãos não podem dar ....

Nos abrigamos nesse mundo que criamos
como um vidro de guardar biscoitos
do qual não sabemos como sair
e sem a presença do ar, nos protege do mofo do mundo
da fome de vida
da possibilidade da aventura externa....

Olhamos através desse vidro, para fora,
desejamos experimentar esse novo que enxergamos
sorver o ar de novos espaços....
Mudar . Mas qual !
Os anos voam velozes
passando sob nossos pés cansados
que envelhecem tentando
e caminham por estradas cada vez mais íngremes
beirando o abismo da solidão, beirando o risco
descortinando a paisagem que não nos pertence
e prosseguimos
coligindo tristezas que não mostramos
agregando sentimentos que não partilhamos
e criando segredos inconfessáveis
no íntimo dos nossos corações.

Passaram-se vinte e cinco anos....
Fazemos bodas de algo....que deveria ser comemorado
como tantas vezes fizemos.
Grandes festas, risos , bebedeiras , amigos por perto
pássaro de prata com vontade de voar....para um porto certo.
Bodas de uma coleção de momentos,
pequenos momentos que se somam em ....vinte e cinco anos!

Iluminada pelo brilho baço da tela do computador
uma lágrima me escorre pela face em desabalada
vontade de chegar ao coração
enquanto escrevo nessa tarde cinzenta e fria.
Eu , aqui, contando o que me vai
pelo espaço da alma
Você pela casa, companheira de jornada dessa nave vazia!

MMartins
15 de novembro de 2007

SOBRE O CASAMENTO....

AMOR E ÓDIO NO CASAMENTO

O estado conjugal é....uma imagem completa do céu e do inferno que podemos experimentar nesta vida.
Richard Steele

Os amigos são menos do que perfeitos. Aceitamos suas imperfeições e nos orgulhamos do nosso senso de realidade. Mas, quando se trata de amor, teimosamente nos agarramos às ilusões – visões conscientes e inconscientes de como as coisas deviam ser.
Quando se trata de amor – amor romântico, amor sexual e amor conjugal - , precisamos aprender outra vez, com dificuldade, a desistir de todos os tipos de expectativas.

O amor romântico da adolescência, diz o analista Otto Kernberg, é o “começo normal e crucial” do amor adulto. Mas muitos terminam a adolescência antes de enterrar o amor adolescente.
E muitos trazem de volta a paixão você-é-tudo-para-mim, não-posso-viver-sem-você. Os passeios ao luar. As viagens à lua. E, apeasr do fato de ser ou não possível conservar esse amor durante todos os anos da vida, ele pode lançar sua sombra sobre tudo o que vier depois.

Freud, tratando do amor, distingue o amor sensual, que procura a gratificação física, e o amor caracterizado pela ternura. Freud descreve também a superestimação – ou idealização – da pessoa amada. Ela também faz parte do amor sexual romântico.
Além disso, Freud nos lembra que nem mesmo o relacionamento amoroso mais profundo pode evitar a ambivalência, e nem o casamento mais feliz pode evitar uma certa porção de sentimentos hostis.
Sentimentos de ódio.

“ A textura sedosa do elo matrimonial” , escreve William Dean Howells , “suporta uma tensão quotidiana de insultos e transgressões, aos quais nenhum outro relacionamento humano poderia ser sujeito sem ser lesado.”
A Boa ressalva é que , às vezes, o elo entre marido e mulher é mais forte do que qualquer dano que possam causar.
A má resalva é que nenhum casal de adultos consegue provocar mais danos um ao outro do que marido e mulher.

O psicanalista Israel Charny, num ousado estudo sobre o casamento, contesta “ o mito de que as dificuldades conjugais são, em grande parte, o destino de pessoas ‘doentes’ ou ‘imaturas’”. Ele argumenta que “empiricamente não se pode negar....que a grande maioria dos casamentos está sujeita a profundas tensões destrutivas, visíveis ou não”. E ele sugere uma redefinição do casamento comum , médio, normal como um relacionamento inerentemente carregado de conflito e de tensão, cujo sucesso exige
“ um perfeito equilíbrio entre amor e ódio”.
As tensões e conflitos da vida de casados podem começar com a morte das expectativas românticas, encantadoramente descritas no poema “Les Sylphides” , onde, sonhando com flores e com rios murmurantes, cetim e árvores dançantes, dois amantes se casam.

...Então eles se casaram – para ficar mais tempo juntos –
E descobriram que jamais estavam muito tempo juntos.
Separados pelo chá da manhã,
pelo jornal da tarde,
pelos filhos e pelas contas dos fornecedores.

Quando acordava durante a noite, ela sentia segurança
na respiração cadenciada do marido, mas imaginava se
na verdade valia a pena, e para onde
o rio tinha ido
e onde estavam as flores.

Nós todos medimos nossos sonhos, comparando-os às realidades. Nós todos talvez tenhamos tentado alcançar um pássaro de plumagem rosada, nos céus da poesia, e acabamos com um papagaio na gaiola da sala de estar, num subúrbio qualquer.

Levamos para o casamento uma infinidade de expectativas românticas. Às vezes, também visões de míticos êxtases sexuais, e impomos à nossa vida sexual muitas outras expectativas, muitos outros ‘ devia ser”, que o ato quotidiano do amor não consegue realizar. A terra devia tremer. Nossos ossos deviam cantar. Fogos de artifício deviam explodir. Devíamos alcançar o paraíso, ou um fac-símile razoável. Nós nos desapontamos.
Porém , mesmo quando a paixão é febril e todos os sistemas funcionam com perfeição, é difícil manter esses picos de excitação. E os casais acabam descobrindo que , depois de algum tempo, o sexo não é mais tão sexy.

Levo mais um copo d’agua para as crianças.
Passo o creme de hormônio no rosto.
Então , depois de terminar a isometria
recebo meu marido com um abraço caloroso.

Com minha camisola de flanela de mangas compridas
e meias (porque meus pés estão sempre gelados),
engulo tranqüilizantes para minhas extremidades nervosas
e pastilhas de antialérgico para a coriza.

Nosso cobertor elétrico azul, regulado ao máximo.
Nosso despertador vermelho, regulado para as sete e meia.
Digo a ele que devemos muito no armazém.
Ele diz que seus dois melhores ternos estão sujos.

No ano passado, dei um Centauro no aniversário dele
(Eles me prometeram que ele se transformaria em meio homem,
meio animal.)
No ano passado, ele me deu algo negro e rendado.
(Eles prometeram a ele que eu ia ficar louca de desejo,
no mínimo.)

Mas , em lugar disso, os rolos do meu cabelo tilintam no travesseiro
e a unha comprida do pé dele me arranha.
Ele se levanta para aplicar um pouco de Chap Stick.
Peço-lhe que me traga dois Bufferin.

Oh, em algum lugar deve haver lindos boudoirs
com lençóis Porthault e dosséis e chicotes.
Ele caça leões na África nos fins de semana.
Ela tem noventa centímetros de cadeiras.

Seus olhos se encontram sobre os copos de conhaque.
Ele passa os dedos pelos cabelos dela, penteados por Kenneth.
Os filhos estão na outra ala com a governanta.
O som de violinos paira no ar.

Na nossa casa ouço água pingando.
Está chovendo, e nunca nos lembramos de tampar a goteira.
Ele apanha o pano de chão, e eu, o balde.
Concordamos em tentar novamente na próxima semana.

Trecho do livro de Judith Viorst
“Perdas necessárias”

domingo, 11 de novembro de 2007

NO RUMO CERTO ?




O que cantarei quando então
esse brilho em seu olhar
já for meu velho conhecido?

O que cobrirá seu corpo lindo
além daquele romântico vestido
que tantas vezes
foi generoso comigo
e aguardou , jogado num canto
pacientemente pelo final
dos nossos momentos de amor ?

Que cor terá
nossa tardes de domingo
em inverno frio e rotineiro?

Terei eu ainda os ímpetos de velho timoneiro
lutando contra as vagas
em desabalada tempestade
seguindo, ainda assim o rumo certo?

Terei ainda essa doce sensação
de, mesmo tão, tão distante
percebê-la presente e absolutamente perto ?

O mar que envolveu nossos corpos
A liberdade exposta
o sol
a natureza do que somos
nos dando a resposta.
As músicas que ouvimos
e a sessão-coruja sob o edredon onde nos amamos....

Resistirão ao passar das horas, dos meses e dos anos ?

MMartins
09/11/2007
No reino Tão Tão distante.

sábado, 10 de novembro de 2007

TOLO INSETO



Cheio de receios e medos
me assusto com essa vontade
de transformar em poesia
o que vejo nos claros do seu olhar....

Pensar em alamedas alaranjadas
pelas flores das Tipuanas
que têm por único trabalho na primavera
enchê-las de cor
parece comum à voz de um poeta

Mas fazê-lo por alguém
à quem , unicamente, se deve respeito
e nem sequer um traço de emoção
parece avesso....

Arremesso
em vidraça alheia
tolo inseto
enredado na teia
do livre pensar
e no trato inocente de se jogar
sem intenções expoentes...

Apenas o registro literário
dessa vontade maldita !

Dessa coisa que invade
o peito e não se aquieta
até que possa ser dita .

MMartins
São paulo
08/11/2007

sábado, 3 de novembro de 2007

CARTA DE INTENÇÕES


Estaremos envelhecendo a partir de agora
que você está crescendo...
Trataremos de aprender com teu dia-a-dia
para poder te ensinar com sabedoria
um pouco da vida que chega aos teus pés.


Tentaremos de todas as formas
todas as fórmulas
pra que teu sorriso seja sempre franco.

Por muitos anos viveremos em função
do teu bem estar e procuraremos ajustar
nosso modo de vida ao que te fará bem.

Decifraremos os mistérios, os meandros
as incógnitas e as belezas infinitas
das pequenas coisas só pra te mostrar.

Aprenderemos juntos
a te formar uma pessoa íntegra sensível.
Zelaremos por teu sono
já que teus sonhos só a ti pertencem;
Para que cada amanhecer
seja melhor em tua vida de menina.

Correremos contra o tempo
contra o vento
Conheceremos as águas
As nuvens
As luas
e as marés....
Resolveremos as charadas da vida à cada dia
tentando lhe mostrar a importância das coisas
desde as folhas até a raiz...

Só então teremos o sentimento da missão cumprida
e envelheceremos em paz
Enquanto você cresce feliz.


“Carta de intenções”
MiroMartins
31/01/1992

domingo, 21 de outubro de 2007

TEUS DEDOS EM MEUS PENSAMENTOS


...enfia os teus dedos
nos meus cabelos
acaricia meus pensamentos

Revira meus cabelos
e com a ponta
das unhas agudas, toca
meu sentimento mais santo.

Dá-me a sensação
do toque
que me emociona tanto...

Enfia teus de dos nos meus cabelos
que sempre esperaram
tuas mãos delicadas
pra sossegar tanta luta
tanta emoção que passa
e a gente nem vê...

Enfia teus dedos nos meus pensamentos
Revira tudo, procura
vê se consegue encontrar
outra coisa
que não seja você!
MMartins

sábado, 20 de outubro de 2007

SABES DE MIM....EU NÃO





Sabes de mim... o eletrônico olhar que tens me denuncia em detalhes....
A mim...resta a imaginação que me suporta em arroubos de fantasia
criamos essa paixão que cresce e que nos transporta
pela rede, próximo ao coração do outro
passamos os dias a pensar...
as noites em movimentos cadenciados de dedos
conversando sem palavras...
Nesse crescer junto/separados, me mata essa libido
Essa fruta que tens e me falta .
anestesiados pelo desejo
e....querendo o proibido....

Essa cumplicidade de segredos, medos e delicias....
de nossas afoitas e desejosas caricias
estamos aqui um diante do outro....
Você assistindo minhas expressões
na vontade que deixo exposta
Eu, esperando um traço, um sorriso, um brilho
que pudesse interpretar como resposta.

MMartins
outubro de 2007

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

NA MONTANHA EM FRENTE


Na montanha em frente...
A tarde cai aqui
onde meu coração pulsa
calmo e seguro, muito antes
de cair em outros lugares.

O fato de meu olhar estar
pousado na face de uma montanha
contraria ao poente
faz com que "entardeça" antes
como meu coração esta entardecendo
ao mundo que me tem...
Vai o sol pela montanha contrária
dourando por onde passa
criando uma luz
que encanta minh'alma silenciosa...

Caminho pela casa, de meias
vendo lá fora o entardecer que avança
como quem não quer atrapalhar
o silencio da tarde
que vai recolhendo suas cores.

Estou entardecendo junto
com essa tarde linda e calma...
Vejo, ouço e sou feliz
por ser quem vê o entardecer
na montanha em frente!

MMartins

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

118


Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça

O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,

Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,

A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea -

aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma.

Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem -

Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.


31/12/1929

Álvaro de Campos

domingo, 14 de outubro de 2007

PENSANDO ....


" A vida é o que fazemos dela.

As viagens são os viajantes.

O que vemos não é o que vemos

senão o que somos..."


"Só o que sonhamos é o que

verdadeiramente somos,

porque o mais

por estar realizado, pertence

ao mundo e a toda gente."

POR MUITOS QUILOMETROS


Meus olhos se encheram de tanta estrada
paisagens e horizontes limpos, lindos
muitos deles , conheço de cor.
Nuvens estrategicamente posicionadas
sob aquele azul surpreendente
postas ali com o claro intuito de encantar
ao mais distraído olhar.
Os meus já viram tantas belezas
e não se cansam de mirar.
Sujeito à tudo nesse ir e vir
acabo encontrando o inesperado
vindo do sul
a beleza feminina que arrebata
definitivamente
questiona convicções
altera certezas
e feito um pôr-do-sol
ruboresce magnificamente...

e sempre assim
com tantos longes fixos
que a cada segundo
insistem em mudar....

Meus Deus ! Todo aquele trecho ali
incluindo aquela montanha
mal passado um mês
se mostraram de um marron-terra
de doer nos olhos
hoje está verde, pincelado do amarelo de vários ipês.

Visão comum em tudo isso
é o tapete negro
que carrega esse viajante coração
por milhares e milhares de quilômetros
a me arrastar pelos interiores desse sertão.

Com tristeza , percebo
que perdi aquela deliciosa emoção
do momento da partida
aquela euforia de menino
no banco de trás do carro do meu pai
prestes a viajar....

Confesso ter perdido essa sensação.
Do cheiro que havia no ar
uns ventos quentes a rondar
a complicação do fazer malas
que minha mãe solucionava
com carinho sempre presente.
Então , com o coração aos pulos
tudo tornava-se diferente.

MMartins
à caminho de Ribeirão Preto
09/08/2007

DEIXE A PORTA ABERTA.



Ela me tirou
de dentro do quarto da poesia
atravez da sala
das contas à pagar....

Me mostrou que fiz poema
nas costas do ticket
do supermercado...

Me tomou das mãos
a garrafa do vinho
que tomamos juntos
e sequer se importou
se eu ainda tinha sede.

Ainda que eu não tenha feito
a coisa certa ...

por favor ,
pelo menos

deixe a porta aberta !

MMartins
São Paulo
13 de setembro de 2007

sábado, 13 de outubro de 2007

MEIO MINUTO




Meio minuto diante do mais lindo

pôr-do-sol que vi na vida...

Parado num semáforo de São Paulo
de repente

toda a loucura dessa cidade suicida
entrou em suspensão
tudo ao redor perdeu o foco
ganhou tons de câmera lenta.

Nesse meio minuto
vendo o sol se pôr
no que me pareceu
ser uma montagem proposital de Deus
pensei tanta coisa bonita
naquele meio sono, meio sonho
enquanto não abria o semáforo.
Até o imundo Rio Tietê paulistano
engoliu aquela luz amarelada duplicando
o que me devolveu num reflexo lindo

Um senhor no táxi ao lado
falando ao celular, não viu o que eu vi
estava a dizer coisas e gesticular
e nem viu o sol...
Pareceu-me que há anos não faz isso.
A criança triste pedinte, exercendo a função de estar ali
implorando um pouco de alegria
em forma de moedas ou sorrisos
será que ficaria feliz
como eu fiquei ao ver o sol tão lindo assim...

Ele estava ali para eles , para mim
e para quem quisesse ver
maravilhoso, gratuito
mas estou certo de que naquele momento
de nós três, só eu vi.... e me emocionei com isso !

Naquele rebuliço do trânsito de São Paulo
no silêncio da minha introspecção
no fundo da minha alma que se pôs a sorrir
um anjo suspirou meu nome
e só eu pude ouvir.

MiroMartins
Sampa 05/09/07

Biquini azul




O BIQUINI AZUL

Não deveria escrever sobre o que vi
e me causou
um misto de espanto e encantamento...
Me sinto indigno, culpado
por ter pensado tudo aquilo
naquele momento tão breve...

O que só eu vi
e ela viu que eu vi
porque eu estava a olhar
com tanta gana, com tanta vontade
que me senti par de Pessoa
na vileza do que me vinha à mente.

Ela era só
o que ainda está descobrindo
o que é ser uma mulher
no trajar e no pensar
mas o corpo....meu Deus !
Quanta sensualidade e firmeza
naquilo tudo
que tanto desejei.

O que só eu vi
e ela viu que eu vi
pareciam dois pássaros aprisionados
na tensão extrema da carne
em tentativa de fuga
Duas luas cheias
quentes e douradas querendo romper o horizonte....

Devo ter pensado tão fortemente
ter desejado tanto
vê-los rompendo ao sol
naquela manhã de domingo
que por telepatia
movi aquele delicado pano azul
para o lado e dei liberdade
àquela obra de arte
firme e desejosa de ar....

MMartins
setembro de 2007

CAIXA IMUNE







O tempo
o tempo passado
real e vivido
esse, passou.....

O tempo do meu coração
da minha vontade e sensações
que você me deu
esse não passa.
não muda
mesmo sabendo
que o mundo mudou.

As doces lembranças
que trago de ti
as trago numa caixa imune
à esse tempo
que inexoravelmente não passa...

Trago memórias
guardadas do tudo de bom
que vivi ao seu lado.
O tempo
esse longo tempo passado
felizmente não deteriora nem muda
o desejo por ti
que trago guardado !

MMartins
Floripa sembro 2007

CONSTATANDO SUA FALTA




Constatando sua falta
O tempo de te esperar se arrasta
morno e pastoso.
As coisas e as pessoas passam por dentro de mim
e parece que também te esperam
Tenho fome de vida.
Meu amor curioso, denso e obscuro
não tem medida
e de tanta ferida
parece que se aproximou
demais de uma bomba
e se encheu de estilhaço...
E eu, com tudo isso, sendo
o dono do circo
fico me sentindo
apenas o palhaço...
Com tudo isso, tendo
uma vida pela frente fico sem saber o que faço!
Com tudo isso, tendo
o seu amor tranquilo, inteiro
fico com a sensação
de que tá faltando um pedaço...

Falta chão
falta cama
decisão...
Falta espaço.
falta o bem que me causa
o teu abraço.
Falta a paz do teu colo
pro meu cansaço!

M Martins

DA MESMA COISA BRUTA




...Adentro essa tarde quente


atravessando a cidade


que conhece a mulher


que agora me desperta


esse desejo ardente.




Não a conheço


mas já é dona


de boa parte do que eu


possa ter sentido


por uma mulher....




Parece-me que quero


o que também ela quer


temos um jeito adolescente


sob a carne que nos queima.




Fomos talhados


da mesma coisa bruta


e tratamos


de assuntos íntimos


da mesma forma que cuidamos


dos nossos corações tão cansados de luta!




MMartins


outubro de 2007


NO SEMAFORO


NO SEMÁFORO


Chiclete, moço ??
e sorriu, mostrando a fresta
dos dentes brancos e juvenis.

Foi assim que ela prendeu minha atenção
rápida, alegre e passarinhamente

O meu aceno negativo com a cabeça
num sorriso amarelo
entre o morrer de vontade de vê-la sorrir
pela venda efetuada
e a consciência de não ratificar aquela prática
vi pelo retrovisor
a chegada ao carro de trás
deixando o som
das sandálias havaianas rosa encardido
solto no ar
como o som de asas de pardais em manhã de sol

Causou em mim um misto de compaixão e ternura
com tristeza...
Quem será ela ?
De onde vem até aqui
para vender chicletes no semáforo
alegre como toda criança deveria ser
leve , colorida
como ave no amanhecer de primavera....

Será que a vida para ela agora
estava sendo o que ela pensou que era???

Ao ver a luz verde do semáforo contra a luz do dia
a imagem dela ........escorreu pelo retrovisor
e se transformou em Poesia.

MMartins
São Paulo 10 de outubro de 2007-10-12